enquanto isso...
Quem é você?
Autor: João Luís Almeida Machado*
A certa altura do filme Tratamento de Choque, estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler, o personagem de Nicholson pede ao de Sandler que se identifique perante os outros participantes de uma sessão de terapia de grupo para pessoas com diferentes distúrbios comportamentais. Ao iniciar sua resposta com dados sobre o seu trabalho e a sua profissão, o participante recém chegado ao grupo logo é recriminado pelo terapeuta que pede a ele que fale sobre si e não sobre suas responsabilidades profissionais...
Sem saber qual resposta dar, Sandler começa a falar sobre seus hobbies e passatempos preferidos. Nova repreensão do analista. Atônito e desconcertado, o jovem não sabe exatamente qual é a resposta à pergunta a ele direcionada. E o mais interessante dessa cômica seqüência é que o tema principal da resposta que ele deveria elaborar era ele mesmo...
Mas, quem ao certo sabe responder essa pergunta nos dias de hoje? Em pleno século XXI, com tanta informação ao alcance de nossos dedos, parecemos muito mais confusos do que éramos há décadas atrás, quando nossas vidas eram muito mais simples e não éramos atormentados a todo o momento pela velocidade e agilidade que nos é cobrada no trabalho, nos estudos, na vida pessoal, nos relacionamentos íntimos,...
Não somos mais reconhecidos por nossas características pessoais, por nosso caráter, valores ou origens. Prevalece, como bem podemos ver através do notável texto do professor Nicolau Sevcenko, a identificação a partir daquilo que é visualizável e exteriorizado aos olhos de outrem. Não somos, parecemos ser...
As roupas, adereços, relógios, telefones celulares, notebooks, livros, cigarros, canetas, carros ou cortes de cabelos e produtos de estética que utilizamos é que são as referências para a compreensão que as outras pessoas têm de nós no mundo atual. Quando entramos numa loja, por exemplo, os vendedores alternam o seu humor e a sua disposição de atendimento conforme a silhueta do cliente que se apresenta aos seus olhos...
Se um terno ou um tailleur veste a pessoa, ou se o celular utilizado pelo potencial cliente é de última geração, ou ainda se os sapatos e o perfume pertencem a alguma grife conhecida, pode ter certeza que o atendimento será preferencial e diferenciado. Pouco importa saber se o dinheiro que pagou por todos esses benefícios e mercadorias é de origem lícita ou ilícita...
Se por outro lado a pessoa estiver trajada de forma modesta, não ostentar jóias caras ou telefones modernos, tiver um corte de cabelo convencional e não usar um desodorante de tradicionais perfumarias... Esteja certo que os vendedores o atenderão com certo desdém...
Até mesmo o popular ditado “as aparências enganam” parece ter caído em desuso. Conhecer alguém com profundidade deixou de ser uma preocupação corrente. É lógico que profissão, formação, cuidados pessoais (asseio, higiene), vestuário e hobbies nos ajudam a entender melhor uma pessoa, seja ela quem for.
Mas no tempo em que vivemos, em que não apenas os produtos são descartáveis, mas também as relações humanas parecem ser cada vez mais cambiáveis a curto e médio prazo, precisamos rever nossos posicionamentos e buscar alternativas mais saudáveis de existência. Precisamos construir vidas que sejam contempladas principalmente pela consolidação de estados emocionais pautados em relações sólidas, de maior proximidade, sustentadas pela verdade, imperfeitas, é certo, mas honestas e sinceras...
Seja você quem for... Nunca abdique de suas características pessoais em favor de modelos pré-concebidos e modismos passageiros... Defenda com paixão suas idéias e crenças... Estenda as mãos às pessoas que ama revelando inteiramente o seu ser e não o seu ter... Tenha sempre orgulho de suas origens, família, amigos e valores... Seja sempre autêntico e verdadeiro...
* Editor do Portal Planeta Educação; Doutorando pela PUC-SP no programa
Educação:Currículo; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie(SP); Professor universitário e Pesquisador.


